– Não restam mais dúvidas, as conseqüências das mudanças climáticas no planeta já se fazem sentir em todos os continentes. Uma das conseqüências é o favorecimento da disseminação de vírus e, entre os quais, temos um arbovírus, da família Flaviviridae, responsável pela dengue. Essa arbovirose é transmitida pelo Aedes aegypti, disseminado em centenas de cidades por todo o território nacional, sendo que a maioria das infestações ocorreram por desleixo federal, estadual, municipal, falta de participação efetiva de muitas instituições de ensino superior (IES) e do próprio povo.
– Convém observar que, a educação e a saúde, historicamente, não foram prioridades de vários governos republicanos, mas existem exceções.
– Em 1958 esse vetor foi controlado, a partir da cidade do Rio de Janeiro, graças a um programa governamental eficiente de combate ao mosquito-da-dengue para a erradicação da febre amarela, a qual, diga-se de passagem, também é transmitida pelos mosquitos do gênero Aedes (Aedes aegypti e Aedes albopictus). Nesses tempos heróicos houve a participação de médicos sanitaristas de renome como Emílio Ribas e Osvaldo Cruz.
– A população do Rio de Janeiro e de diversas cidades brasileiras ficaram livres do culicídeo por longas décadas, mas a modernidade e muitos valores questionáveis fizeram ressuscitar doenças, antes erradicadas, com a volta triunfal do mosquito transmissor, agora com quatro sorotipos virais comprovados: DEN 1, DEN 2, DEN 3 e DEN 4.
– A facilidade de transportes modernos, outrora feita com carroças, é também usufruída pelo mosquito. Temos hoje navios gigantescos, caminhões com carretas, ônibus, aeronaves, trens de cargas etc, levando, gratuitamente, o passageiro indesejável e dessa forma contribuindo com a disseminação nos grandes e médios centros urbanos.
– Com a urbanização desenfreada, serviços públicos totalmente falhos, ou paliativos e terrenos baldios transformados em verdadeiros chavascais permitem que o sonho de consumo do esperto mosquitinho urbano se transforme em uma realidade inquestionável. Esses terrenos baldios, bem como a aglomeração residencial urbana sem saneamento básico não passam de áreas nobres, uma espécie de “fast food”, “shopping center” e motéis para mosquitos.
– Nesses tempos modernos, o controle populacional do Aedes aegyti não é fácil. O uso de inseticidas ajuda a reduzir o número de fêmeas, desenvolve imunidade nos sobreviventes, além de não atingir os ovos desse inseto, também conhecido como pernilongo-rajado. Já os programas de combate não poderiam admitir meias medidas sob pena do fracasso, como se bem vê em várias cidades brasileiras.
– Para impedir a epidemia bastaria manter sob controle apenas um dos elementos da tríade: humano contaminado/vírus/mosquito. Para que isto verdadeiramente ocorra tem que haver vontade política, principalmente do governo municipal, pois é sábio lembrar que o Poder Público Municipal é o que está mais intimamente ligado às mazelas urbanas e com a tarefa precípua de solucioná-las adequadamente em consonância com as leis federais estaduais e municipais.
– Infelizmente, o que se percebe em muitas cidades, inclusive em Boa Vista, é uma quantidade de terrenos baldios repletos de monturo, consubstanciado com a falta de conscientização de muitas pessoas que, inconscientemente, trabalham em consonância com o mosquito-da-dengue. Além do mais, poder-se-ia fazer o seguinte questionamento: do que adiante o Agente de Saúde verificar as residências a procura de focos larvais, quando muitos desses terrenos baldios, em dissonância com a função social a que realmente deveriam se destinar, não passam de verdadeiros berçários do famigerado Aedes Aegypti e estão, pelo visto, incólumes das vistas dos Agentes de Saúde e autoridades sanitárias.
– Em suma, ou as autoridades tomam medidas enérgicas com medidas coercitivas, de acordo com cada caso, ou o flagelo da dengue e suas variantes estará a produzir um número incalculável de vitimas em várias cidades, incluindo Boa Vista. O melhor exemplo de descaso governamental gerado durante anos é a cidade do Rio de Janeiro, beirando mais de uma centena de óbitos e milhares de munícipes contaminados com o vírus. É o caos endêmico instalado pelo descaso, pelo individualismo e pelo vírus da corrupção. Muito diferente do tempo do presidente da República Rodrigues Alves, dos médicos Osvaldo Cruz e Emílio Ribas, todos do século passado, quando o mosquitinho Aedes aegyti foi erradicado.
Sobre o autor
JVilsemar Silva
Formação em Ciências Humanas (Direito) pela UEPG- Especialista em Direito Civil, Direito Processual Civil, Segurança Pública e Metodologia do Ensino Superior - Téc. em Criminologia (POR) e Vitimologia (POR), Ext. em Psicopatologia e Suas Interfaces.
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Comentários
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